A espondiloartrite não é uma única doença, e sim um grupo de artrites inflamatórias crônicas. Diferente da osteoartrite (o "desgaste"), aqui o problema é a inflamação autoimune: o sistema imunológico ataca as próprias articulações — principalmente a coluna e as articulações sacroilíacas, que ligam a bacia à base da coluna.

Quando o acometimento é sobretudo da coluna e da bacia, falamos em espondiloartrite axial, que tem duas formas no mesmo espectro:

  • Espondilite anquilosante (forma radiográfica): já há dano estrutural visível na radiografia das sacroilíacas.
  • Forma não radiográfica: a inflamação já existe e causa sintomas, mas ainda não aparece na radiografia — só na ressonância magnética. É a "dor invisível", subdiagnosticada por anos.

O ponto-chave: dor inflamatória × dor mecânica

A maioria das dores nas costas é mecânica (esforço, postura, hérnia). A da espondiloartrite é inflamatória — e reconhecê-la é o que permite o diagnóstico precoce.

CaracterísticaDor INFLAMATÓRIADor MECÂNICA
InícioInsidioso, em pessoa jovemMuitas vezes súbito, após esforço
Rigidez matinalMais de 30 minutosCurta ou ausente
Com exercícioMELHORAPiora
Com repousoNÃO melhora / pioraMelhora
À noiteDói na segunda metade da noite e faz levantarRaramente acorda
Anti-inflamatórioResposta muito boaResposta variável

A regra de ouro

Dor nas costas que melhora ao se mexer e piora ao ficar parado, em pessoa jovem, com rigidez matinal prolongada e que acorda de madrugada — isso é o oposto da dor mecânica comum e deve acender o alerta.

Sinais fora da coluna

  • Entesite — inflamação onde tendões se inserem no osso. A clássica é a dor no calcanhar que não passa.
  • Dactilite — o "dedo em salsicha": o dedo inteiro incha.
  • Uveíte — olho vermelho, dolorido e com fotofobia. Exige atendimento oftalmológico rápido.
  • Psoríase — placas avermelhadas e descamativas na pele.
  • Doença inflamatória intestinal — Crohn ou retocolite.
  • Artrite periférica, sobretudo assimétrica e de membros inferiores.

HLA-B27: é um marcador genético fortemente ligado à doença — positivo em cerca de 73% dos pacientes no registro brasileiro. Mas atenção: ter HLA-B27 não significa ter a doença (muitos portadores saudáveis nunca adoecem), e não tê-lo não exclui o diagnóstico. É uma peça do quebra-cabeça, não um veredito.

O paradoxo ósseo — por que isto está num site de saúde óssea

A doença enfraquece e endurece o osso ao mesmo tempo

É o aspecto mais contraintuitivo e clinicamente relevante da espondiloartrite.

Osso a mais, no lugar errado: a inflamação estimula a formação de osso novo nas bordas das vértebras, criando pontes chamadas sindesmófitos. Quando elas se unem, a coluna vai fundindo e enrijecendo — o quadro avançado é a clássica "coluna em bambu".

Osso a menos, frágil: ao mesmo tempo, a inflamação crônica e a perda de mobilidade causam perda do osso trabecular interno, levando a osteoporose e a alto risco de fratura vertebral — sobretudo em homens e nos primeiros 5 anos de doença. Estudos populacionais chegam a apontar risco várias vezes maior; metanálises recentes são mais modestas, mas o aumento é consistente.

Por que os dois ao mesmo tempo? À medida que as pontes ósseas externas se formam e a coluna deixa de se mover, o osso interno "descarregado" — sem estímulo mecânico — enfraquece ainda mais.

Armadilha diagnóstica importante

A densitometria da coluna pode dar resultado falsamente normal ou alto nesses pacientes, porque os sindesmófitos e as calcificações "mascaram" a leitura. Por isso avalia-se preferencialmente o fêmur/quadril e, quando disponível, o TBS.

Consequência prática: uma coluna rígida e fundida é também uma coluna frágil. Um trauma aparentemente leve pode causar fratura vertebral grave.

Diagnóstico

É clínico, apoiado por exames — nenhum teste isolado fecha o diagnóstico. O reumatologista integra:

  • Quadro clínico — dor lombar inflamatória + manifestações associadas.
  • Imagem das sacroilíacas — radiografia (dano estabelecido) e ressonância magnética (detecta inflamação ativa precocemente; essencial na forma não radiográfica).
  • Laboratório — PCR e pesquisa do HLA-B27.

Pelos critérios de classificação da ASAS, considera-se a doença em pacientes com dor lombar por 3 meses ou mais com início antes dos 45 anos, combinando sacroiliíte em imagem + 1 característica, ou HLA-B27 + 2 características.

Tratamento

O exercício não é coadjuvante — é a base

Exercício regular e fisioterapia são o pilar do tratamento. Mobilidade, alongamento e fortalecimento mantêm a coluna flexível e a postura — e, coerente com a doença, a atividade alivia os sintomas. Parar de fumar também importa: o cigarro piora a progressão.

  • Primeira linha: anti-inflamatórios (AINEs), com a resposta característica boa.
  • Doença refratária: biológicos anti-TNF e anti-IL-17, e também os inibidores de JAK (tofacitinibe, upadacitinibe) — todos recomendados pelo ASAS-EULAR 2022. Com os JAK, avaliam-se fatores de risco cardiovascular, tromboembólico e oncológico (idade acima de 65, tabagismo).
  • A escolha considera as manifestações associadas: na uveíte recorrente ou doença intestinal, preferem-se anti-TNF monoclonais; na psoríase significativa, os anti-IL-17.
  • Em remissão sustentada, pode-se reduzir a dose do biológico — não interromper abruptamente.

Corticoides sistêmicos têm papel limitado na doença axial e ainda agravam a osteoporose — mais um motivo para o manejo cuidadoso do osso.

Quando procurar um reumatologista

Investigue se houver

Dor lombar crônica (mais de 3 meses) com início antes dos 45 anos, somada a pelo menos um: características de dor inflamatória; HLA-B27 positivo; sinais de sacroiliíte em imagem; uveíte, psoríase, doença intestinal, dor no calcanhar ou dedo em salsicha; história familiar; ou boa resposta a anti-inflamatórios.

O diagnóstico precoce muda o prognóstico: quanto antes a inflamação é controlada, menor a chance de fusão da coluna, deformidade e fratura. Adulto jovem com dor nas costas que melhora ao se movimentar e o acorda de madrugada não deve ser tratado como uma simples "dor de coluna".

Referências:
  • ASAS-EULAR recommendations for the management of axial spondyloarthritis: 2022 update. Annals of the Rheumatic Diseases.
  • Registro Brasileiro de Espondiloartrites (Advances in Rheumatology, 2024). ASAS Handbook — critérios de classificação. Osteoporosis International — fratura vertebral na espondilite anquilosante.