A gota é a artrite inflamatória mais comum em adultos. Ela acontece quando cristais de urato monossódico — um "pó" de agulhas microscópicas — se depositam dentro e ao redor das articulações. Esses cristais só se formam quando o ácido úrico no sangue permanece alto por muito tempo (hiperuricemia).
A analogia do açúcar
Imagine o ácido úrico como açúcar dissolvido na água. Se você coloca açúcar demais, o excesso vira cristal no fundo do copo. Na gota, esses cristais se formam dentro da articulação e provocam uma inflamação intensa.
Ácido úrico alto não é gota
Muitas pessoas têm o ácido úrico elevado e nunca desenvolvem sintomas. A gota é a doença que aparece quando os cristais já se formaram e disparam a inflamação.
A crise aguda — o "ataque"
- Dor súbita e muito intensa, que costuma começar de madrugada ou ao acordar.
- Classicamente atinge a base do dedão do pé — quadro chamado podagra.
- A articulação fica vermelha, quente e inchada, e tão sensível que às vezes o peso do lençol já dói.
- Pode acometer também tornozelo, meio do pé, joelho, punho e dedos das mãos.
- Sem tratamento, a crise melhora sozinha em 7 a 14 dias — mas isso não é cura: os cristais continuam lá.
Gatilhos comuns: uma refeição farta com carne ou frutos do mar, uma noite de cerveja, desidratação, jejum, cirurgia, trauma — ou até o início do próprio remédio que reduz o ácido úrico.
Fatores de risco
- Carne vermelha e vísceras (fígado, rim, moela) — ricas em purinas.
- Frutos do mar (mariscos, camarão, anchova).
- Álcool, especialmente cerveja — rica em purinas e que ainda dificulta a eliminação do ácido úrico. O vinho tem impacto menor.
- Bebidas açucaradas e com frutose — a frutose eleva a produção de ácido úrico.
- Obesidade e síndrome metabólica.
- Doença renal crônica — o rim elimina menos ácido úrico.
- Diuréticos (tiazídicos e de alça) e outros medicamentos.
- Genética, sexo masculino e idade. Nas mulheres o risco aumenta após a menopausa.
Diagnóstico
Padrão-ouro: encontrar os cristais no líquido articular (obtido por punção) ou em um tofo. Na prática, muitos casos são diagnosticados pelo quadro típico — podagra recorrente em paciente com fatores de risco.
A armadilha do exame de ácido úrico
O ácido úrico no sangue pode estar NORMAL durante a crise — ele tende a cair no auge da inflamação. Portanto, um ácido úrico normal na crise NÃO exclui gota. O ideal é remedir semanas depois, com a crise passada. O exame serve mais para acompanhar o tratamento do que para diagnosticar o ataque.
Exames de imagem (ultrassom com o "sinal do duplo contorno", tomografia de dupla energia) podem apoiar o diagnóstico em casos selecionados.
Tratamento: duas frentes que não se confundem
Este é o ponto que mais gera confusão. São duas estratégias diferentes, com objetivos diferentes.
Frente 1 — tratar a crise (apagar o incêndio)
Objetivo: aliviar dor e inflamação rápido. Não muda o ácido úrico a longo prazo. Idealmente iniciada nas primeiras 24 horas. As três opções de primeira linha, escolhidas conforme o perfil do paciente:
- AINEs (anti-inflamatórios).
- Colchicina — mais eficaz quando iniciada cedo, em dose baixa (1,2 mg seguido de 0,6 mg uma hora depois), tão eficaz quanto a dose alta e com menos efeitos colaterais.
- Corticoides — úteis sobretudo em quem não pode usar AINE nem colchicina (por exemplo, na doença renal).
Frente 2 — baixar o ácido úrico (dissolver os cristais)
Objetivo: baixar e manter o ácido úrico para que os cristais se dissolvam e as crises deixem de acontecer. É o tratamento que realmente modifica a doença — mas age ao longo de meses.
- Alopurinol é a primeira linha, inclusive na doença renal crônica. Começa-se com dose baixa (100 mg/dia ou menos) e aumenta-se aos poucos.
- Febuxostate é alternativa quando o alopurinol não é tolerado. Atenção: há alerta de segurança cardiovascular (maior mortalidade cardiovascular que o alopurinol em pacientes com doença cardíaca) — o que reforça a preferência pelo alopurinol.
- Tratar por alvo ("treat-to-target"): a dose é ajustada com dosagens periódicas até atingir o alvo de < 6 mg/dL — recomendação do ACR 2020 para todos os pacientes, inclusive os com tofos. A EULAR sugere um alvo mais baixo, < 5 mg/dL, na doença tofácea/grave, para acelerar a dissolução dos cristais. Essa estratégia por alvo é fortemente preferida a usar dose fixa.
- Na gota tofácea refratária ao alopurinol e ao febuxostate, existe ainda a pegloticase.
Antes do alopurinol, em alguns casos: o teste HLA-B*58:01
Recomenda-se testar o HLA-B*58:01 antes de iniciar alopurinol em populações de maior risco de reação grave de pele — incluindo pessoas de ascendência africana e do sudeste asiático. É uma precaução relevante no Brasil.
As duas regras de ouro
- NÃO suspenda o remédio do ácido úrico durante uma crise. Se você já usa alopurinol e tem um ataque, o remédio continua — trata-se a crise por cima. Parar e recomeçar faz o ácido úrico oscilar e pode desencadear novas crises.
- Ao iniciar, use profilaxia. Quando o alopurinol começa (ou aumenta), o ácido úrico cai e essa "movimentação" dos cristais pode paradoxalmente provocar crises. Por isso associa-se um anti-inflamatório em dose baixa de proteção por 3 a 6 meses.
Quando iniciar o tratamento de longo prazo
- Crises recorrentes (em geral 2 ou mais por ano);
- Presença de tofos;
- Cálculo renal por ácido úrico;
- Dano articular já visível em exames de imagem.
Gota tofácea crônica
Quando a hiperuricemia não é controlada por anos, os cristais se acumulam e formam tofos — depósitos endurecidos sob a pele, em articulações e tendões (comuns nas orelhas, cotovelos e dedos). Além de deformarem, eles destroem a articulação. É a forma avançada e evitável da doença — motivo pelo qual atingir e manter o alvo de ácido úrico importa tanto.
Estilo de vida: importante, mas complementar
Mudanças de hábito ajudam, mas não substituem o remédio quando ele está indicado — isoladamente, a dieta reduz pouco o ácido úrico (a evidência dietética é de baixa qualidade, e as recomendações são condicionais). Ainda assim valem: reduzir álcool (sobretudo cerveja), cortar bebidas açucaradas, moderar carne vermelha, vísceras e frutos do mar, perder peso, hidratar-se bem e rever com o médico o uso de diuréticos.
A mensagem final
A gota é uma das poucas formas de artrite com tratamento capaz de acabar com as crises e reverter os depósitos de cristais. O segredo é entender que baixar o ácido úrico é um tratamento contínuo e de longo prazo — mantido inclusive fora das crises — e não apenas "tomar remédio quando dói".
- FitzGerald JD et al. 2020 American College of Rheumatology (ACR) Guideline for the Management of Gout. Arthritis Care & Research.
- Richette P et al. 2016 updated EULAR evidence-based recommendations for the management of gout. Ann Rheum Dis, 2017. Sociedade Brasileira de Reumatologia.