A artrite psoriática é uma doença inflamatória crônica das articulações associada à psoríase. É imunomediada: o próprio sistema de defesa ataca articulações, tendões e pele. Pertence ao grupo das espondiloartrites.
A psoríase não é "só uma doença de pele"
Em parte das pessoas, a mesma inflamação que causa as placas na pele também ataca as articulações. E a artrite pode surgir antes, junto ou depois das lesões cutâneas — em cerca de 10 a 15% dos casos as articulações inflamam antes de qualquer mancha na pele, o que atrasa muito o diagnóstico.
Quem tem psoríase precisa ficar atento
Cerca de 20% das pessoas com psoríase — aproximadamente 1 em cada 5 — desenvolve artrite psoriática. E esse número sobe com a gravidade da psoríase: chega a cerca de 35% na doença moderada e pode passar de 50% na psoríase grave. É a manifestação fora da pele mais frequente da psoríase.
Por isso, toda pessoa com psoríase deve ser questionada periodicamente sobre dores articulares, rigidez matinal e inchaço nos dedos — existem inclusive questionários de rastreio validados (como PEST e ToPAS) para isso.
Manifestações características
A doença é heterogênea — cada paciente tem uma combinação diferente. As sociedades internacionais a organizam em domínios, e é a combinação de domínios ativos que orienta o tratamento.
- Artrite periférica — mãos, punhos, joelhos, tornozelos e pés. Costuma ser assimétrica (mais típica), mas pode ser simétrica e confundir com artrite reumatoide.
- Acometimento axial — coluna e sacroilíacas, com dor lombar inflamatória (piora com repouso, melhora com movimento).
- Dactilite — o "dedo em salsicha": incha o dedo inteiro, não só uma articulação. É um sinal bastante característico.
- Entesite — inflamação onde tendões se inserem no osso: calcanhar (tendão de Aquiles), planta do pé, cotovelo. Causa comum de dor no calcanhar que não melhora.
- Unhas — pittings (depressões puntiformes, como se a unha tivesse sido picada por alfinete) e onicólise (descolamento da unha). O acometimento ungueal se associa fortemente à inflamação das pontas dos dedos, um padrão muito sugestivo.
Para o paciente
"Alterações nas unhas, um dedo inteiro inchado ou uma dor no calcanhar que não passa não são detalhes sem importância. Em quem tem psoríase, podem ser os primeiros sinais de que a doença chegou às articulações."
A doença vai além das articulações
É uma doença sistêmica, associada a maior risco de obesidade e síndrome metabólica, doença cardiovascular (a inflamação crônica aumenta o risco de infarto e AVC), uveíte, doença inflamatória intestinal, além de ansiedade, depressão e esteatose hepática. Essas comorbidades influenciam diretamente a escolha do tratamento.
Diagnóstico
Não existe exame único que confirme. O diagnóstico é essencialmente clínico, apoiado por exame físico, imagem e laboratório.
- Critérios CASPAR — amplamente usados, com sensibilidade de ~91% e especificidade de ~99%. Consideram doença inflamatória articular associada a psoríase (atual, pregressa ou familiar), alterações ungueais, fator reumatoide negativo, dactilite e formação óssea na radiografia.
- Fator reumatoide geralmente negativo — ajuda a diferenciar da artrite reumatoide.
- Imagem — radiografia, ultrassom (bom para entesite e dactilite) e ressonância (para o acometimento axial).
- Não há marcador específico; VHS e PCR podem estar elevados, mas são inespecíficos.
Tratamento guiado pelo domínio acometido
O princípio moderno é tratar conforme os domínios ativos de cada paciente, com decisão compartilhada e metas definidas (buscando remissão ou baixa atividade).
| Classe | Papel principal |
|---|---|
| AINEs | Alívio sintomático; monoterapia só em doença leve. Corticoide oral não é recomendado de rotina |
| DMARDs sintéticos (metotrexato, sulfassalazina, leflunomida) | Artrite periférica; pouco eficazes no domínio axial e na entesite |
| Anti-TNF (adalimumabe, etanercepte, infliximabe…) | Primeira linha na doença moderada a grave, em vários domínios |
| Anti-IL-17 (secuquinumabe, ixequizumabe) | Muito eficazes em pele, entesite e doença axial |
| Anti-IL-23 / IL-12-23 (guselcumabe, ustequinumabe) | Eficazes em articulações, pele e entesite |
| Inibidores de JAK (tofacitinibe, upadacitinibe) | Opção oral para múltiplos domínios; atenção ao perfil cardiovascular e trombótico |
| Apremilaste | Opção oral na doença mais leve |
Como os domínios orientam: na artrite periférica, iniciar cedo um DMARD sintético (metotrexato é o preferido, sobretudo quando há pele acometida); na doença axial, os DMARDs sintéticos não funcionam — preferem-se biológicos ou JAK; entesite e dactilite respondem melhor a biológicos do que ao metotrexato.
As comorbidades pesam: na doença intestinal, evitam-se os anti-IL-17 (podem piorar a doença de Crohn); na uveíte, preferem-se anti-TNF monoclonais; psoríase cutânea extensa favorece anti-IL-17 ou anti-IL-23.
Antes de iniciar um biológico
Faz parte da rotina o rastreio de tuberculose e hepatites, a revisão das vacinas e a conversa sobre planejamento de gravidez — tudo isso influencia a escolha. No Brasil, o acesso a essas medicações no SUS segue o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da artrite psoríaca.
Por que o diagnóstico precoce é decisivo
A inflamação não tratada causa erosão e destruição articular irreversível, deformidade e perda de função. Estudos mostram que atrasos de poucos meses no início do tratamento já se associam a pior evolução a longo prazo. Dor articular, dedo inchado, dor no calcanhar ou dor lombar inflamatória em quem tem psoríase devem ser avaliados sem demora.
O cuidado costuma envolver duas especialidades: o dermatologista — que em geral vê o paciente primeiro e tem papel-chave no rastreamento — e o reumatologista, que conduz o diagnóstico articular e o tratamento.
- GRAPPA — updated treatment recommendations for psoriatic arthritis, 2021. EULAR recommendations for the management of psoriatic arthritis: 2023 update.
- Taylor W et al. — critérios CASPAR. Alinaghi F et al. — metanálise de prevalência (JAAD). Sociedade Brasileira de Reumatologia. CONITEC/Ministério da Saúde — PCDT Artrite Psoríaca.