A osteoporose induzida por glicocorticoide (GIOP) é a causa mais comum de osteoporose secundária e a principal de origem medicamentosa. Os corticoides (prednisona, prednisolona, dexametasona e outros) são muito usados em doenças reumatológicas, respiratórias, intestinais e após transplantes — e enfraquecem o osso mais rápido do que se imagina.
Por que a perda óssea é rápida e precoce
Diferente da osteoporose pós-menopausa (lenta), a GIOP tem perda rápida: cerca de 6–12% no primeiro ano, concentrada nos primeiros 3 a 6 meses. O corticoide sobretudo freia a formação de osso (reduz e mata os osteoblastos e osteócitos), além de aumentar temporariamente a reabsorção e prejudicar a absorção de cálcio.
O ponto mais importante: o risco de fratura sobe ANTES de a densitometria cair
Grande parte do dano é de qualidade do osso, que a densitometria não mede. Por isso, quem usa corticoide fratura com T-scores mais altos — e não se deve esperar a DMO cair para agir. A boa notícia: o risco também cai rápido quando o corticoide é suspenso.
Não há dose totalmente segura: mesmo doses baixas (a partir de 2,5–7,5 mg/dia de prednisona) já elevam o risco; doses ≥ 7,5 mg/dia o aumentam de forma substancial.
Quem avaliar
Recomenda-se avaliar o risco de fratura em todo adulto que inicia ou mantém prednisona ≥ 2,5 mg/dia (ou equivalente) por um período previsto de ≥ 3 meses — o quanto antes, pois a perda é precoce. A avaliação inclui história de fraturas e fatores de risco, densitometria de coluna e fêmur, pesquisa de fratura vertebral e o FRAX (em maiores de 40 anos).
Ajuste do FRAX para a dose de corticoide
O FRAX considera o corticoide apenas como "sim/não" e assume uma dose média, subestimando doses altas. Por isso, para prednisona > 7,5 mg/dia, multiplica-se o risco de fratura maior por 1,15 e o de quadril por 1,2 (correção endossada pela diretriz ACR 2022). Exemplo: um FRAX de fratura maior de 18% vira ≈ 20,7%, reclassificando o paciente de risco moderado para alto.
Categorias de risco (a partir de 40 anos)
| Categoria | Definição (ACR 2022) |
|---|---|
| Muito alto | Fratura por fragilidade prévia; ou T-score ≤ −3,5; ou FRAX ajustado ≥ 30% (fratura maior) ou ≥ 4,5% (quadril); ou corticoide em dose ≥ 30 mg/dia por > 30 dias, ou dose cumulativa ≥ 5 g/ano |
| Alto | T-score ≤ −2,5; ou FRAX ajustado ≥ 20% (maior) ou ≥ 3% (quadril) |
| Moderado | FRAX ajustado 10–19,9% (maior) ou > 1% e < 3% (quadril) |
| Baixo | FRAX ajustado < 10% (maior) e ≤ 1% (quadril) |
O que fazer — para todos os pacientes
- Cálcio 1000–1200 mg/dia e vitamina D 600–800 UI/dia (mais para repor deficiência).
- Menor dose eficaz pelo menor tempo; preferir vias não sistêmicas quando possível.
- Exercício com carga e fortalecimento, parar de fumar, moderar o álcool e prevenir quedas.
Tratamento farmacológico (risco moderado a muito alto)
- Bisfosfonatos orais (alendronato, risedronato) — primeira linha na maioria dos casos, por eficácia, segurança e baixo custo.
- Ácido zoledrônico IV — alternativa na intolerância oral.
- Denosumabe — opção útil, inclusive na doença renal; não interromper sem transição.
- Anabólicos (teriparatida, abaloparatida, romosozumabe) — preferidos no muito alto risco e na GIOP grave, pois combatem diretamente o principal defeito (a queda da formação óssea). Depois, sequenciar com um antirreabsortivo.
- 2022 American College of Rheumatology (ACR) Guideline for the Prevention and Treatment of Glucocorticoid-Induced Osteoporosis (Humphrey et al., Arthritis & Rheumatology, 2023).
- International Osteoporosis Foundation (IOF). ABRASSO. Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).